A maior verdade do ser humano

 Fatima Dannemann

 

         Uma coisa sempre me impressiona quando viajo ao interior: os laços de amizade entre as pessoas que me parecem mais profundos. Se alguém vai dar uma festa, toda a mulherada da vizinhança vai ajudar a preparar os “comes e bebes”, se alguém morre, todos os vizinhos estão ali prontos para dar apoio. E quando alguém precisa, todo mundo se junta e ajuda. Quem tem carro dá carona a quem não tem, ah, e muitas vezes em viagens para lugares distantes. Ah, e todo mundo conhece todo mundo. Bebe-se “fiado” no bar, as meninas mais assanhadas tem sempre quem lhe dê conselhos para evitar ficar “perdida” ou “falada” por todo mundo da região. Sim, todo mundo sabe as fofocas e detalhes da vida de todo mundo, mas em compensação um ajuda o outro. Se não há fartura, pelo menos há uma venda onde se compra fiado tendo a palavra de honra como a única garantia de pagamento.

         Nas cidades maiores, a vida high-tech acabou um pouco com este clima de amizade e solidariedade. O resultado é que as pessoas ficaram mais carentes, apesar de bem sucedidas profissionalmente ou financeiramente, e os consultórios dos terapeutas ficam lotados. Psicólogo acaba virando o melhor amigo do cidadão urbano. Na periferia, onde moram as pessoas que saíram do interior com promessas de melhor vida na cidade grande em seus corações, o clima é um pouco diferente. Mas, talvez seja a solidariedade em torno dos mesmos problemas: desemprego, violência, perigo de balas perdidas, fome, assistência médica precária, educação que deixa a desejar (alias, que educação? A elitista que produzem gênios por excesso e Solanges por falta de escola?). De qualquer jeito as pessoas ficam mais amigas na periferia que nos bairros classe A onde moradores de prédios de luxo daqueles com um apartamento por andar, mal sabe o nome de seus vizinhos do andar de cima e do andar de baixo.

        A culpa disso é a competição que se cria entre as pessoas. Profissionais de uma mesma área até se tratam bem, socialmente, mas lá no fundo um teme o outro. Sua idéia é de que aquela outra pessoa é seu concorrente. E isto se deu comigo. Um menino recém-aprovado no curso de comunicação virou-se para mim e disse: “somos concorrentes”. Eu emendei: ‘Não, somos colegas”. E fiz uma ressalva que poucos profissionais fazem especialmente na área de jornalismo onde ser estrela parece ser um predicado sine qua non se poderá ser um bom jornalista: “no que precisar de ajuda, conte comigo”, e dei meu telefone para eventualidades. Mesmo médicos, profissionais que, fatalmente vão precisar uns dos outros, algum dia, nem que seja para assinar o atestado de óbito, concorrem e se engalfinham quando deviam ser amigos e parceiros, até por causa do atestado inevitável.

       E carentes, desconfiadas, as pessoas acabam criando paredões em torno de si. As novelas de televisão ajudam. Em vez de promover bons sentimentos, as novelas naquelas de “dar lição de moral no ultimo capitulo”, acabam mostrando tudo de podre que existe no reino da alma de alguns seres humanos (sim, alguns porque eu acredito no ser humano bom e puro e a amizade é uma prova desses sentimentos). Acabam todas ou trancadas em casa, desconfiadas da própria sombra ou com medo da violência de outros carentes (os carentes sociais, de educação, de formação moral e até de amor de família, que acabam caindo no crime até por falta de outra oportunidade), ou saem de casa mais do que deviam, vão a festas, buscam em lugares da moda o preenchimento de seus vazios.

      Mas – ainda bem – nem tudo é assim tão negro como sonha a vã filosofia. Se o tamanho das cidades afastou as pessoas, a tecnologia as reaproximou. Telefones, celulares, fax, net, programas interativos de TV, vem quebrando os paredões de isolamento e construindo ponte entre as pessoas. Novos laços de amizade, via e-mail, msn, icq, vão transformando o planeta numa imensa cidade do interior. Ai, a gente descobre que nossa “cumadi” de longos papos no chat, é nossa vizinha. Ah, e faz ginástica na mesma academia. Legal, podemos marcar um almoço num restaurante desses light e de comida a quilo, que tal? Ah, conhece mais alguém, vamos fazer um encontro. E festejar a vida. E quem é professor fica amigo de quem é médico, e geólogos e jornalistas descobrem que têm altos assuntos a conversar. Ateus ficam amigos de espiritalistas e descobrem que acreditar em Deus é o mesmo que acreditar em bons sentimentos. E, quando bate a carência, quando a vida se torna cinza. Felizmente o mundo agora é uma grande praça. Se há guerra no Iraque, há quem apenas deseje a paz no interior. E o telefone encurta distâncias. Ah, pode ser diferente do interior, sim. Mas é um começo. E no futuro, quem sabe os Bin-Laden e os Bushes descubram que são velhos amigos de chat ou de icq. E a paz seja possível, e a amizade uma das maiores verdades do ser humano. Mas isso ninguém pode negar.

          

 
 

 

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By Maytê Web Solutions

06.01.2003