A BICHARADA DA ENROLAÇÃO

Luiz Alberto Machado

 

            Depois de meio mundo de denúncia, a torto e a direito, quase dando a entender que este é o país da presepada, a Receita Federal, de quando em vez, acha por bem de descobrir, não se sabendo ao certo, se finalmente vai desbaratar por completo - claro, às vezes o peido fede mas só tem casacudo perfumadíssimo no meio,  aí    já   vem    o  enterro de volta -, uma quadrilha fraudando isso ou aquilo. Como sempre lido e ouvido, lá consta sempre fraudar, de fraude; e não de colocar fraldas, hem hem, nas falcatruas e apropriações do erário público. Pois, flagraram uma fraude. Grande novidade. No Brasil é de cantar "Aleluia". Cascaviam, parece. Agora encontrar o nome dos envolvidos é que é ela. Alguém sabe? Alguém viu? Se fosse eu, já estava no opróbrio popular e trancafiado. Mas como aqui a corda de guiamum só pára no mais fraco, os de cima estão nas benesses de pertencer ao reino dos céus. Porque, gente, o que tem de nego graúdo no meio, ôxe, é tanto que escapa pelo ladrão. Se tiver um sujeitinho de tope menor, ah! vai logo pro cadafalso não passando de mero bode expiatório. Pois é.

A incredulidade é tanta, apesar da esperança vencer o medo, que a gente até acha graça. E tem que achar mesmo. Até agora, justiça só serve mesmo para ladrão de galinha esfomeado, ou melhor, para pé rapado. Os outros, ah! esses compram qualquer conivência.

O negócio da trapaça já está tão enraizado na índole do brasileiro, que até, preconceituosamente, os racionais - será mesmo? - acham de nomear os irracionais nas suas estripulias. Não sabiam? Verdade. Fraude mesmo tem uma representação no reino dos animais: gato por lebre, que significa: passar rasteira nos bestas. E a manchete da semana devia ser sempre assim: raposa passa gato por lebre no leão. Nossa, seria mais sintomática, porque o que se descobre de falcatrua que não dá em nada, já deu pro gasto e hoje não tem mais graça.

Tanto que o brasileiro que sempre gostou de sapecar manganção no bicho - a meu ver, o verdadeiro bicho é o homem porque é o mais esquisito! -, é afeito a um joguinho de azar na águia, no pavão, isso do primeiro ao quinto, com centena, dezena ou milhar, ou seca na cabeça. Tem das suas: arruma gato na energia, jacaré na água, macaco na nota, isso tudo para engalobar o abestalhado desavisado: chapéu de otário é marreta. É o jeitinho cordial de se livrar das mazelas. Se não dá certo, paga mico; se for flagrado, vira avestruz; não ensina a ninguém o pulo do gato, tá doido? E quando o negócio enfeia, cada macaco no seu galho, pt saudações.

Mas tudo isso está no anedotário popular e, quase sempre, são coisas de pouca monta. A bronca mesmo é com os tubarões. Ah! com esses ninguém mexe, claro, têm dinheiro no banco - mesmo que o banco nem queira saber de onde vem o dinheiro mais sujo que se possa imaginar -; têm posse e maior pavoneamento com uma penca de cheleléu servil para beijar-lhe os ovos, isso no judiciário, no executivo e no legislativo; têm mugido maior que boi ferrado; quando mexe no que é seu - que normalmente é tomado à força dos outros -, dá mais latido que cão esfomeado; isso sem contar com a sabedoria e astúcia dos símios mais aparentados, de tirar proveito em qualquer circunstância de flagrante prejuízo. E mais: sem contar com a boquinha que todo passarinho caboeta traz para facilitar as saídas mais escusas. Isso será que tem jeito? Avalie.

É, roubalheira macha, me dá até a idéia de que fraudulência tem a ver com flatulências: umas fedem, mas passam; outras saem tão furtivamente que nem a gente mesmo sente que largou o peidorreiro. Pode? Parece que os caras ou tomam perfume, ou se entopem com suco de craviola.

Salve, salve esse Brasil de todos nós e de ninguém! Bié, bié, glup, glup


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By Maytê Web Solutions

15.09.2003