ARREPEANDO O CABELO
 
Luiz Alberto Machado

 

        Gente, nunca fui achegado a andar de moto. Nunca mesmo. Mesmo embora ache bonito a bundinha arrebitada das meninas na garupa do zoadeiro e a sensação de liberdade arrepeando o cabelo nos potros motorizados, mas nunca me arvorei a me atrepar numa bicha dessa, marca que fosse, potência que tivesse.

      Sempre gostei mais, quando pirralho, de velocípede; de bicicleta, de garoto até pré-aborrecente, quando aprendi a pedalar por volta dos seis anos; e de carro, quando comecei a guiar por volta dos 11 ou 12 anos de idade.

    Do velocípede, boas lembranças vez que o meu tinha um carregador na parte traseira que dava para levar minha irmã nas minhas piruetas. Claro que não me livrei de umas quedas boas e estuporadas, e de atropelar gente e coisa no meio da casa e pelas calçadas. Aprontei um bocado.

    Já a bicicleta, meu sonho de menino de chorar quando ganhei uma, foi um desastre. Não quebrei braço, nem costela, nem nada, mas em compensação, não havia uma só parte do meu corpo que não tivesse uma roncha, um samboque arrancado, uma perebeira cobrindo tudo, hematoma como a praga do pau da venta ao dedo mindinho do pé. Tudo cheio de marca dos meus amostramentos para a namorada, para o povo, da aposta de corrida com o cata-corno, de cair da ponte embaixo, de tirar fino e ficar pendurado nos postes, de se enganchar nos varais, se relar nas paredes, se estrepar nas cercas de arame farpado, se lascar nos avelóis, se arrebentar amorcegando caminhão, se embucetar com gente e todo tipo de troço que aparecesse pela frente. Resultado: acabei três, uma minha e outras duas das minhas irmãs. Tanto que eu era conhecido como o fim-do-mundo de desajeitado que sempre fui.

    Já por volta dos onze ou doze anos, fui aprender a dirigir, mas como sempre fui desastrado, dá prá se imaginar as minhas aprontações. O carro: um fusca 59 do meu tio. O bicho fazia tudo quando eu dirigia: arreava bateria, esvaziava pneu, esquentava a bobina, queimava o relê, dava bexiga no platinado, entupia o carburador, faltava gasolina, engrenava marcha, batia motor, a praga! O nome do carro era Pereba de tanta massa multicor e desbotada que o veículo apresentava, chega dava pena amuntar no danado, debrear aos peidos e acelerar deslizando a embreagem. Prá pegar, só no empurrão. Para frenar, só nas barruadas. Freio que era bom, era um bicho. Quando tascava o pé no pedal, parava com o solado no chão em carne viva. Uma desgraça mesmo! A ponto de eu chegar prá meu tio e perguntar:

    - Ô tio, o senhor ainda chama isso de carro? Isso é um vespeiro de bronca, ora!

    Era mesmo, era a alegria de mecânico e aperreio do meu tio. Até o dia que ele comprou uma motocicleta e chegou a se apaziguar. Moto, não, nunca quis nem ver. Já vi muito desmantelo com moto. E do jeito que eu sou azuretado, nossa! Capaz de me arrebentar primeiro do que ela. Provavelmente. Aliás, com certeza eu não estaria aqui contando história. Graças. Ainda bem que motocicleta nenhuma caiu na minha predileção. Até achava bonita aquela Harley-Davidson com cada mina boazuda na garupa, nossa! Meu sonho. Quer dizer, as minas em primeiro lugar, né, que não sou burro, meu. A moto era só para consegui-las, chamar a atenção delas, mais nada. Droga de moto, nunca. Eu já vi ônibus fuderoso dar cada chapuletada em moto do cara se estender lá longe. Vivo que não ficava. E os trancas dos carros? Só via neguinho voando prá se foder lá longe com capacete, coragem, blusão e tudo. Um verdadeiro caminho prá casa da peste! Eu, hem? Nem de longe.

    E se eu já não gostava da roncadeira, agora é que me abusei dela mesmo, ao saber que aquela droga de veículo polui mais que 10 carros juntos. Pode? Não basta o ronco no juizo de enlouquecer a gente e o oportunismo dos motoqueiros de arriscar a nossa vida prá cima e prá baixo, a coisa polui que só. Só vejo o fuzuê de um atropelado, um que lascou-se atravessando a linha do trem, outro que deixou os miolos num gelo baiano, oxe, todo tipo de acidente trágico.

    Como no Brasil tudo é permitido, as motos prosseguem impunes. Deu até na imprensa que nos países de origem dos fabricantes, tudo é nos conformes, nada de poluição. Aqui não, esculhambação geral, poluição de todo tipo. Como é que pode, hem?

    Vamos nessa. Bié, bié, glup, glup!!!!


 

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29.09.2003