DESABAFOS DE PERNA-DE-PAU


Luiz Alberto Machado

 


Deixando a modéstia de lado, devo dizer aos amigos & amigas que eu quase fui um renomado jogador de futebol. Noutras palavras: um craque. Verdade! Faltou muito pouco, menos que um cabelinho-de-sapo para que na verdade eu fosse uma celebridade do futebol, dessas laureadas e decantadas nas mesas redondas de domingo, desfilando carro importado e cheio das Marias-chuteiras penduradas no meu bolso.

Devo admitir que se não fossem os desestímulos de familiares, amigos e desafetos, seria mesmo um daqueles dos mais aclamados e afamados ídolos da bola, de estufar as redes adversárias e sair na foto gesticulando obscenidades no maior auê com a galera torcedora, berrando: ói nóis na fita, mano!

Também foi fator decisivo para tanto aquela instabilidade em me definir por uma vocação: primeiro queria ser motorista de ônibus interestadual. Depois fiquei indeciso se virava padre, pastor ou dono de uma mediunidade capaz de dialogar com almas de outro mundo, quando na verdade eu queria ser logo e, de uma hora para outra, um avatar daqueles de andar por cima das águas, atravessar parede e andar invisível por aí.

Foi quando veio a professora primária que, com seu jeito fascinante e encantador, saiu bulindo com meus sentimentos precoces até me levar por uma paixonite agudíssima, a ponto de provocar-me a escrever quadrinhas inocentes com a cor da calcinha dela. E o pior: com o flagra e o castigo na escola, vi que poesia não poderia ser minha praia.

Muitos contribuíram para que eu não fosse nada além de um badameco polichinelo, reduzido a uma irrisória existência entediada.
Minha mãe mesmo não arredava o pé de me ver um proeminente médico, mesmo cônscia da minha inapropriada mania de desmaiar toda vez que eu visse sangue escorrendo no que quer que fosse.

Meu pai batia o pé para que eu seguisse a carreira de advogado porque, com certeza, coitada da esperança dele, eu seria um jurisconsulto brilhante e respeitado.

Já meu avô paterno sonhava em me ver um fazendeiro aboiando gado do muito e mandando e desmandando em tudo.

Afinal, com tudo isso na idéia veio então aquela notória e peculiar indecisão de ficar naquela de boiar na pasmaceira de qual que seria mesmo no fim das contas pro que eu devia servir de verdade.

Felizmente, o restante da parentalha evidentemente mais desconfiada que eu virasse mesmo serventia para nada, ficava só de soslaio e só esperando mesmo no que eu pudesse chegar, na verdade, a ser. Claro, só aprontava reinando célere. Assim, adivinhavam meu futuro.

Só faltou quem me quisesse engenheiro, ainda bem, o que seria um desastre calamitoso.

Com isso tudo, mesmo assim ainda insisto que eu seria mesmo um craque da bola.

Claro que não possuía aquela, digamos, perícia peculiar aos privilegiados de nascença no trato com a redondinha para dribles desconcertantes, toques mirabolantes, pontaria certeira, ginga cheia de cacoetes da malandragem, jeitão de só bordejar no balanço do navio e outras peculiaridades afins, mas com certeza, houvesse mais incentivadores eu seria talvez o maior de todos os tempos.

Também devo considerar que, em primeiro lugar, não fossem a moleta de um zagueiro coxo e os paralelepípedos que apareceram de repente na beira do campo quando eu estava na maior carreira de doido, eu seria um avassalador de defesas.

Claro, depois de abrir o maior samboque no joelho, estrupiar a perna e dilacerar a coxa, além de levar uma pisa daquelas bem dada e ficar no estaleiro por meses a fio, queria mais o quê? Só concentração ou estaleiro.

Diziam que melhor seria eu me destinar a ser jogador de porrinha, baralho, dominó, peteca, evitaria piores acidentes.

Mesmo sendo um desajeitado, considero na conta do atrapalho o olho-gordo dos invejosos como um dos óbices intransponíveis para decolar na minha carreira, porque só me deixavam, pelo menos, na regra-tres se eu levasse a bola. Ou então só me deixavam entrar na linha depois de ficar uma eternidade no banco de reservas esperando que alguém torasse a canela, ou quebrasse o pé, ou entronchasse o pescoço, ou fosse vítima da maior arriada de lenha. Aí por ausência real de quem substituir a vítima, eu entrava, isso normalmente aos 45 minutos do segundo-tempo. Nem suava a camisa e o juiz, outro dos antipáticos do meu talento, já encerrava a partida. Tudo uma verdadeira conspiração, né não?
A inveja era tanta que dava até para notar certa satisfação nos meus pares de time pelo fato de eu não ter nem tocado na bola.

Persistente, fui mais além e inventei de me especializar melhor embaixo das traves e fiz uma tentativa de ir para o gol para ver se minha sina mudava. Deu certo que logo fui convocado a defender o time, porque o titular se machucou justo numa dessas horas bem apertadas.

O pior de tudo, nem conto: não fosse a lapada raçuda dada por um atacante adversário, daquelas que vem feito um torpedo quebrando tudo, resultado: quase perco os dedos e fico estuporado com a caixa dos peitos empenada, findando num desmaio pela chapuletada de, até hoje, me deixar com uma tosse braba. Por causa disso, goleiro nunca mais.

Como não sou de desistir fácil, ainda enfrentei mais, principalmente aqueles mais aproveitadores que só me escalavam como integrante do time se eu comprasse o padrão para todos os jogadores. Pelo menos eu ficava ali no meio dos que estavam de fora, incentivando a turma do jogo prá ganhar a partida.

Tirante tudo isso eu acho que seria um craque da hora. E claro, seria bem provável que eu chegasse a ser maior que Pelé, Maradona, Zico, ou.

De uma coisa, enfim, eu sei: seria um craque célebre não fosse eu, a vida toda, um perna-de-pau. Bié, bié, glup, glup!

 

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By Maytê Web Solutions

04.04.2004