FEVEREIRO, CARNAVAL & FREVO

 

Luiz Alberto Machado

 

 

 

 

 

A gente nem piscou: o ano eclodiu ontem e já estamos em fevereiro. O tempo voa, não pára. Verdade.
 

Nem bem a gente saiu de um cotoquinho de gente, já se sente envergado com o peso da idade. E parece que foi ontem: as presepadas da infância, as maloqueragens da adolescência e as estripulias do rigor adulto. Tudo num triz da memória. Zás! E ao se dá conta hoje, quando não é o fardo extenuante desfocando a vida com os peculiares embaraços que arrocham se amontoando no toitiço da gente, é aquela bronca como bola de sinuca ricocheteada que acerta nos possuídos: oh,nãoooooo!
 

Por isso, sem nostalgia alguma, eu vou nas freviocas entoando: ...eu vou driblando as broncas pra gororoba chegar, eu dou nó cego até no mar pra fazer meu direito valer...
 

Como o calendário vai dando corpo ao relógio na guilhotina do tempo e preparando todo mundo para a casa dos que não estão, basta virar o ano e, de sopetão, já é fevereiro e ninguém quer fazer par com os que morreram dum bocado de coisa.
 

Claro, e como em fevereiro – mês da februa, consagrado a festas e purificação dos mortos - ninguém é asno simiesco de ficar na espriguiçadeira do Hino do Nacional, ta doido?
 

Basta ouvir o primeiro acorde de qualquer frevo que a gente se encharca de incha-bucho, lavando a prensa pra liberar a jega e cair na folia. U-hu, é com esse que eu vou!
 

E se é fevereiro, é carnaval, do carmem levãre, véspera da abstenção da carne. Eu, hem? Eu mesmo me apronto, dou uma fortificada no fígado, estico os ossos, libero a goela e viro adepto do Momo, filho do Sono e da Noite, que vem numa mão com a máscara e, na outra, a loucura na cabeça grotesca do cetro. E tome folia pra cima.
 

Assim, enveredo no tríduo momesco todo probo, da sexta-pré que vira pro sábado de Zé-pereira no improviso das piruetas que esquenta os nervos, mexe com alma e agita o esqueleto com as acrobacias de sombrinha, até a terça-feira gorda, gingando na dobradura, na tesoura, na locomotiva, no ferrolho, no parafuso, no pontilhado, no saci-pererê, no diabo-a-quatro para confirmar: Sou brasileiro, meu bem, de janeiro a janeiro, de ralar o ano inteiro pra ver se a vida um dia vai mudar prum melhor fevereiro, festa de carnaval, pular, esbaldar festeiro pra ver se a minha vida um dia vai mudar... tudo na melhor tradição de Edgar Morais, João Santiago, Raul Morais, os Irmãos Valença, Nelson Ferreira, ou Capiba que diz: “...essa vida é mesmo assim... não penses que estou triste nem que vou chorar... eu vou cair no frevo, vou me acabar”.
 

Assim, no frevo uma homenagem: que essa vida, essa passagem, só o amor faz imortal.

 

© Luiz Alberto Machado
 Direitos reservados

lualma@terra.com.br 

Leia mais sobre Luiz Alberto Machado
clicando em seu nome

 

 
NAVEGUE PELO SITE

 

Para receber nosso
Boletim de Atualizações
cadastre seu email
AQUI

Gostou desta página?
Envie-a para alguém especial

Visitante nº
 

desde 27.10.2003

 

A reprodução de todo ou parte desta página
NÃO É PERMITIDA
sem prévia autorização da autora
A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS AUTORAIS É CRIME!

 
By Maytê Web Solutions

04.02.2004