Flagrante hediondez a que a gente constata todos os dias e a toda hora
nos noticiários da imprensa. E a cada dia que se passa, essa atitude
abjeta adquire requintes cada vez maiores de perversidade.
Essa é a lamentável constatação de que a vida humana não vale um vintém
sequer, chegando a se entender as palavras do processualista italiano
Francesco Carnelutti, de que "Por isso, litigiosidade e delinqüência são
dois índices correlativos de incivilidade: quanto mais civil ou
civilizado é um povo, menos delitos se cometem e menos litígios surgem
em seu seio".
Levando-se isso ao pé da letra e na ponta da língua, dá para se dizer
que este Brasil ou é o país dos conflitos eternos, ou o paraíso da
impunidade. A meu ver, as duas coisas.
No entanto, isso tudo nos leva ao repúdio extremado e à indignação
chorosa. E esta atitude de repúdio e indignação, causa cada vez mais
problemas aos indignados, nunca aos causadores desses conflitos e
beneficiários dessa impunidade.
Exemplo disso, foi o bestial assassinato do professor e artista plástico
Paulo Henrique Costa Bandeira, ocorrido no último dia 2 de junho, aqui
em Alagoas.
Por causa de um ideal voltado para o magistério e uma indignação com a
malversação ao erário público, o professor procurou das autoridades para
denunciar desvio de verbas do Fundef e aos recursos destinados à
educação pública na cidade de Satuba, interior próximo da capital
alagoana.
As autoridades locais alegam que ele não formalizou nenhuma denúncia,
mas, mesmo assim, foi barbaramente trucidado: seu corpo foi encontrado
completamente carbonizado na mala traseira do seu automóvel, abandonado
em uma estrada vicinal, mas propriamente num matagal, do município de
Satuba.
No próximo dia 26 de junho, o professor completaria 47 anos, mas antes
disso, foi irrespondivelmente abatido pela selvageria que campeia impune
e pelos que encobrem falcatruas diversas enlameando a vida humana.
O professor que lecionava na Escola Municipal Josefa Costa Silva,
costumava ser visto, aos sábados e domingos, levando galões de tintas
para pintura do educandário, quando não levando brinquedos, talheres,
arranjos, tampos sanitários para melhor embelezar a escola, tendo em
vista o descaso com que é tratada a educação neste país. E era apenas um
professor, mas queria passar para seus alunos, exemplos de consciência
cidadã. Por isso, foi dizimado.
Do crime, os dias se passaram com a polícia civil se arrastando nas
diligências por nuances e linhas de raciocínio com suspeitos
diferenciados, conforme declarou na ocasião à imprensa, o delegado que
preside o inquérito.
No entanto, por exigência do Ministério Público, do Ministério da
Educação e da opinião pública, a Polícia Federal começou a trabalhar em
conjunto com a Polícia Civil, para desvendar o caso.
Dias depois, com a divulgação pela imprensa nacional de uma carta e de
uma fita cassete produzidos pela vítima, encontrava-se o suspeito então
acusado de mandante do assassinato do professor, na pessoa do prefeito
de Satuba, senhor Adalberon de Moraes Barros.
Sua prisão foi, então, decretada, não por esse crime, mas por um outro:
do soldador Jeames Alves dos Santos, adversário político do prefeito,
ocorrido em dezembro do ano passado e que aguardava desde então pela
apreciação da Procuradoria Geral de Justiça.
Pela pressão, o prefeito foi recolhido numa cela especial no presídio
Baldomero Cavalcanti, em Maceió, juntamente com dois PMs, o cabo Ananias
de Oliveira Lima e o soldado Geraldo Augusto Santos Silva, envolvidos na
morte do soldador.
O prefeito que responde por inúmeros processos na justiça, inclusive em
Brasília onde espancou uma mulher, teve na última quarta-feira, negado
pelo Superior Tribunal de Justiça, o habeas-corpus impetrado pelo
advogado do prefeito (e da gang fardada), Welton Roberto.
Suspeito não é réu, só o será quando a justiça comprovar em sentença
tramitada em julgado. Mas um fato causou mais indignação ainda: os
jornais alagoanos estamparam a foto do prefeito presente, ao lado de
curiosos e policiais, durante a descoberta do corpo carbonizado do
professor, no interior do veículo. Mais um estardalhaço.
A coisa pegou e conforme notícia veiculada pelo semanário Extra, na
edição de 15 a 21 de junho, precisamente na coluna Sururu da Redação,
consta a notícia de que o presidente local do PTB, deputado federal e
candidato a prefeito de Maceió, empresário João Lyra, quer que a
expulsão do prefeito seja discreta.
E maior revolta causou, quando a ex-secretária estadual de educação,
hoje deputada estadual, Maria José Viana, deixa entender em matéria
publicada no O Jornal, edição desta quinta-feira, que sofreu pressões
para não levar adiante investigações sobre o desvio de verbas do Fundef
na sua gestão, desabafando na entrevista, que "quem diz a verdade é
queimado moralmente, ou queimado vivo, como foi o caso do professor".
Lamentavelmente, o descrente brasileiro fica numa sinuca de bico: afinal
em quem acreditar? A quem recorrer? E constata: o Brasil realmente é o
país dos conflitos eternos e o paraíso da impunidade.
Resta-nos a solidariedade e a dor de mais uma vítima entre outras tantas
vítimas dos conflitos eternos e da impunidade garantida.