HEDIONDEZ BANAL NOSSA DE CADA DIA

Luiz Alberto Machado



Flagrante hediondez a que a gente constata todos os dias e a toda hora nos noticiários da imprensa. E a cada dia que se passa, essa atitude abjeta adquire requintes cada vez maiores de perversidade.

Essa é a lamentável constatação de que a vida humana não vale um vintém sequer, chegando a se entender as palavras do processualista italiano Francesco Carnelutti, de que "Por isso, litigiosidade e delinqüência são dois índices correlativos de incivilidade: quanto mais civil ou civilizado é um povo, menos delitos se cometem e menos litígios surgem em seu seio".

Levando-se isso ao pé da letra e na ponta da língua, dá para se dizer que este Brasil ou é o país dos conflitos eternos, ou o paraíso da impunidade. A meu ver, as duas coisas.

No entanto, isso tudo nos leva ao repúdio extremado e à indignação chorosa. E esta atitude de repúdio e indignação, causa cada vez mais problemas aos indignados, nunca aos causadores desses conflitos e beneficiários dessa impunidade.

Exemplo disso, foi o bestial assassinato do professor e artista plástico Paulo Henrique Costa Bandeira, ocorrido no último dia 2 de junho, aqui em Alagoas.

Por causa de um ideal voltado para o magistério e uma indignação com a malversação ao erário público, o professor procurou das autoridades para denunciar desvio de verbas do Fundef e aos recursos destinados à educação pública na cidade de Satuba, interior próximo da capital alagoana.

As autoridades locais alegam que ele não formalizou nenhuma denúncia, mas, mesmo assim, foi barbaramente trucidado: seu corpo foi encontrado completamente carbonizado na mala traseira do seu automóvel, abandonado em uma estrada vicinal, mas propriamente num matagal, do município de Satuba.

No próximo dia 26 de junho, o professor completaria 47 anos, mas antes disso, foi irrespondivelmente abatido pela selvageria que campeia impune e pelos que encobrem falcatruas diversas enlameando a vida humana.

O professor que lecionava na Escola Municipal Josefa Costa Silva, costumava ser visto, aos sábados e domingos, levando galões de tintas para pintura do educandário, quando não levando brinquedos, talheres, arranjos, tampos sanitários para melhor embelezar a escola, tendo em vista o descaso com que é tratada a educação neste país. E era apenas um professor, mas queria passar para seus alunos, exemplos de consciência cidadã. Por isso, foi dizimado.

Do crime, os dias se passaram com a polícia civil se arrastando nas diligências por nuances e linhas de raciocínio com suspeitos diferenciados, conforme declarou na ocasião à imprensa, o delegado que preside o inquérito.

No entanto, por exigência do Ministério Público, do Ministério da Educação e da opinião pública, a Polícia Federal começou a trabalhar em conjunto com a Polícia Civil, para desvendar o caso.

Dias depois, com a divulgação pela imprensa nacional de uma carta e de uma fita cassete produzidos pela vítima, encontrava-se o suspeito então acusado de mandante do assassinato do professor, na pessoa do prefeito de Satuba, senhor Adalberon de Moraes Barros.

Sua prisão foi, então, decretada, não por esse crime, mas por um outro: do soldador Jeames Alves dos Santos, adversário político do prefeito, ocorrido em dezembro do ano passado e que aguardava desde então pela apreciação da Procuradoria Geral de Justiça.

Pela pressão, o prefeito foi recolhido numa cela especial no presídio Baldomero Cavalcanti, em Maceió, juntamente com dois PMs, o cabo Ananias de Oliveira Lima e o soldado Geraldo Augusto Santos Silva, envolvidos na morte do soldador.

O prefeito que responde por inúmeros processos na justiça, inclusive em Brasília onde espancou uma mulher, teve na última quarta-feira, negado pelo Superior Tribunal de Justiça, o habeas-corpus impetrado pelo advogado do prefeito (e da gang fardada), Welton Roberto.

Suspeito não é réu, só o será quando a justiça comprovar em sentença tramitada em julgado. Mas um fato causou mais indignação ainda: os jornais alagoanos estamparam a foto do prefeito presente, ao lado de curiosos e policiais, durante a descoberta do corpo carbonizado do professor, no interior do veículo. Mais um estardalhaço.

A coisa pegou e conforme notícia veiculada pelo semanário Extra, na edição de 15 a 21 de junho, precisamente na coluna Sururu da Redação, consta a notícia de que o presidente local do PTB, deputado federal e candidato a prefeito de Maceió, empresário João Lyra, quer que a expulsão do prefeito seja discreta.

E maior revolta causou, quando a ex-secretária estadual de educação, hoje deputada estadual, Maria José Viana, deixa entender em matéria publicada no O Jornal, edição desta quinta-feira, que sofreu pressões para não levar adiante investigações sobre o desvio de verbas do Fundef na sua gestão, desabafando na entrevista, que "quem diz a verdade é queimado moralmente, ou queimado vivo, como foi o caso do professor".

Lamentavelmente, o descrente brasileiro fica numa sinuca de bico: afinal em quem acreditar? A quem recorrer? E constata: o Brasil realmente é o país dos conflitos eternos e o paraíso da impunidade.

Resta-nos a solidariedade e a dor de mais uma vítima entre outras tantas vítimas dos conflitos eternos e da impunidade garantida.
 


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25.06.2003