PAGANDO O PATO, Ó
Luiz Alberto Machado
Olhem, preclaros amigos e amigas: a gente engole
sapo, chulea situações promissoras, dá um bico na
adversidade, defenestra chato de galocha, arrudeia
bronca, foge de agouro, empurra com a barriga o
quanto pode, abafa o badalo, cumpre na risca e,
ainda, por cima paga o pato. Pode? Me vem aquela
sensação de: chapéu de otário é marreta! Valha-me
qualquer amuleto apócrifo, pelo menos! Arre!
Nesses tempos de responsabilidade civil, social,
fiscal - quem ver, morre! -, do escambau, eu fico de
cabelo em pé e me dano quando tenho a mínima
impressão de que não valho nada, só os sabidos levam
sempre vantagem em tudo, até quando? Ou será meu
karma que é carregado de esborrar, o meu só não, o
de milhões de brasileiros desafortunados, da gente
olhar prum lado e pro outro e só se deparar com a
enrolada da complicação geral? Ih, sei não. Saber, a
gente sabe, fazer diferente é que acho que não se
sabe não.
Pois é, mesmo que cumpra leis e deveres, ande na
linha espreitando trem, honre a índole de
adimplente, lute por um dia melhor para você e para
o país, não adianta, se não sabia, fique sabendo:
paga o pato por tudo que acontecer. Verdade. Ou não
acredita? Veja só: se os postos de gasolina
adulteram os combustíveis e cobram ágio por força do
gatilho consentido
oficialmente nos preços dos derivados, você se acha
lesado, banca a revisão do seu carro que já anda aos
pipocos se peidando todo e ainda sai com a impressão
de que estão mangando da sua cara. É ou não é? Ou
acha que vão buscar o cerne da questão, hem? Duvido.
De uma coisa está ciente: ninguém resolve o problema
da coletividade. Ao contrário, enfiam mais broncas
prá gente ficar doido varrido!
Se os serviços públicos são precários, tanto pela
incompetência funcional, quanto pela burocracia que
enseja propinas, você entra na fila, espera pela má
vontade de tudo e no fim, nem que a vaca tussa terá
seu direito resguardado, restando, apenas, tomar uma
e esfriar o quengo para não derreter a gaia, nénão?
Deixe prá lá e se conforme que esse nó num tem quem
desate: os maiorais fazem vista grossa para o
problema da população geral. Causa perdida.
Se compulsoriamente tem debitado na conta corrente
ou no saque da poupança, aquela abominável CPMF que
isenta especuladores e não destina seus recursos
para a saúde, você arreia a lenha e esquece, melhor
esculhambar indiferentes mais próximos. Esses, pelo
menos, desentortam à primeira vista. E outra: a
ferida do Estado sangra na nossa alma. Ainda num
inventaram remédio para isso. Aliás, inventar
inventaram, aqui que é que não se usa a requisição,
parece.
Se paga juros escorchantes coniventemente admitidos
pelo Banco Central em detrimento de uma definição
explícita constitucional, você sente que foi roubado
mas mesmo assim deixa em dia seus débitos e lava a
burra no primeiro buteco que encontrar por haver
limpado a cara. Num é isso não? Os nervos antes à
flor da pele se equilibram e dá para renovar as
forças e enfrentar a labuta miserável amanhã quando
tudo terá que ser pago novamente. Pagar, pagar,
pagar...
Se poupa energia elétrica por iniciativa própria
quando beneficiam geradoras e distribuidoras com
lucros astronômicos e percentuais lucrativos
siderais, você fica no escuro, sozinho, sem mulher
nem parente nem aderente, pensando o que foi que
você fez a sua vida toda, calma, não caia em
depressão, conforte-se: ao que tem tudo se lhe dará
e o que não tem, até o que tem lhe será tomado.
Encha a cara, meu, é melhor, vá dormir com a paz dos
anjos que protegem os outros.
Se faz vista grossa com notícias sobre o tráfico de
drogas, de armas, de influências, de crianças
recém-nascidas, está certo, é melhor que botar mão
em cumbuca de vespeiro. Só tenha cuidado com uma
dessas balas doidas que andam zanzando por aí.
Se não se dá conta que ao seu lado pode estar uma
quadrilha do crime organizado praticando aquelas
cenas hediondas reclamadas na TV, assaltando cargas,
estabelecimentos comerciais e desavisados cidadãos,
não esteja nem aí, isso é bronca para policiais e
autoridades desonestas rechearem suas fortunas,
quando não estiverem enfiados no meio deles; isso,
eles, também, se dizem filhos de deus.
Se fica ligado nos índices da bolsa de valores e
acha que aquilo tem haver com a esmagadora maioria
dos brasileiros, pode começar a rezar pelo que
sobrou para alguma irrisória aplicação, porque o
bode da Argentina parece que vai estourar na sua
mão. Reze muito que resolve. E fique calmo, pense no
seu fígado.
Se fica preocupado com a queda da audiência da
novela televisiva, ou com os tititis ou o voyerismo
descarado, melhor, você é mais um que faz parte
desse universo catatônico que premia sandices e
golpeia seriedade, coçando o saco pelo
entretenimento, conseguindo ficar deitado
eternamente em berço esplêndido.
Se nem liga para a impunidade dos corruptos que
avassalam as instituições públicas, as privadas e o
meio de campo do país, tem nada não, você já sabe
que a teta das benesses só vai para quem tem uma
estrela na testa.
Se nem se toca com a quebra de empresas, bancarrota
de bancos nem a sonegação deslavada de impostos,
besteira, nem se iluda, isso é lá longe, o que é seu
ninguém tasca a mão - só o governo, os bandidos e os
sabidos.
Se num está nem aí para a eleição de facínoras que
desvirtuam a sua vida, ligue não, você é mais um dos
quase duzentos milhões de brasileiros que fazem
questão que ladrões e enrolões tomem conta da vida
da nação e não defendam nada dos seus interesses -
só os deles, apenas.
Se fica chocado com a morte do sapo de estimação da
madame emergente que ofereceu o maior regabofe
suntuoso no aniversário do cachorro com as
socialites - que sensibilidade, meu! -, não se
deprima, ela vai continuar acumulando o dela e dando
língua para a sua leseira.
Se nem-seu-silva-de-dar-bola para poluição dos rios
e todo tipo de destruição contra a natureza, nem se
azogue, você está apoiando a omissão legalizada e a
covardia secular, deixando para os seus descendentes
somente uma herança de broncas que eles vão ter que
se virarem dobrado comendo arroiado se quiserem
resolver.
Se nem diz nada com relação à má qualidade dos
serviços prestados pelas companhias telefônicas,
pelas multinacionais, pelos órgãos públicos, pelos
hospitais, pela previdência social, pelas
empreiteiras e incorporadoras, nada não, pior se
ficar rouco e num puder dar uns gritos soltos para
mostrar que é o ineivado no que faz.
Se não fica de cara amarrada com o péssimo
atendimento dispensado pelos desqualificados, bom,
você é um cara de sorte, tudo escorre na calha da
eficiência, num é?
Se não faz muxôxo por causa da morosidade da
justiça, ôxe, ninguém se apressa para ver o inferno
de perto, num é não?
Se não faz careta com o enriquecimento ilícito dos
maiorais, necas de neres de nada mesmo, cada qual
que cuide si, né? Quem não quer uma oportunidade
para se arrumar?
Se detesta falar em educação, esse negócio de
eleição, de cidadania, de sustentabilidade, de
política - coisa de linguarudo que num tem o que
fazer! - e odeia quem inventou essas coisas, ótimo,
depois de tudo isso você acaba de ganhar um prêmio:
o babaca fabo do milênio! Pois é, você paga o pato e
nem se toca que metem a mão no seu bolso por pura
inércia sua. Do
contrário, abra o olho, brasileiro. Tire essa bunda
gorda do sofá e faça alguma coisa, pelo menos, a sua
parte! Participe! O Brasil poderá ser melhor, só
depende de você! Bié, bié, glup glup!