Por um gesto necessário em favor da vida!!!!!

(Ou pranto em favor das vítimas de sempre)

 

Luiz Alberto Machado

 

A barbárie detectada nos últimos tempos, prova que trogloditas modernos preferem ceifar vidas que cultivá-las para ganhar o troféu da hegemonia, da supremacia de uns sobre outros, como se o homem dependesse de uma antropofágica necessidade de eliminar o semelhante para ocupação de mais espaço e sua afirmação superando seus recalques.

A cobiça, a ganância, a insensibilidade, copia as contínuas e absurdas cenas que povoam o cenário voltaireano na satírica e trágica mangação ao otimismo peculiar aos conformados, e está suficientemente reproduzida, para nosso escândalo, nas estatísticas do mundo de hoje. E ainda nos cumprimentamos com um "tudo bem" como se fôssemos Pangloss negando a própria realidade quando realmente está ocorrendo um calamitoso miserere em fabordão, uma calamidade geral. E em Foucault podemos vislumbrar como agem ainda hoje tais impiedosos, banalizando a violência como se a integridade humana não valesse absolutamente nada. Exemplo disso? Que crime poderia cometer duas meninas de oito anos de idade para serem estupradas e, depois, serem brutalmente assassinadas por insanos e encontradas, uma semana depois, jogadas num canavial completamente irreconhecíveis? São atrocidades que ficam no questionamento do imaginário.

No entanto, a modernização perseguida hoje implica vida, respeito pelo ser humano e estabelecimento da cidadania, além de levar todo ser a interagir com o meio. Isso porque há necessidade de relacionamento não só entre si e os seus semelhantes, mas com todos os fenômenos do meio em que a vida se instaura, até com a dessemelhança e o paradoxal. Esta é a modernização na vera. Não a do paroxismo da acumulação irresponsável e predatória, colonizando mentes e atitudes para afixação de poderes superiores, cultuando doutrina perenizada desde o tempo do ronca. E essa colonização grotesca ocorre por completa ausência de discernimento e compreensão, porque sabe-se que, indubitavelmente, existem seres minúsculos, incapazes de serem detectados pelos sentidos humanos e que por não serem vistos, não significam que não existem. E estes são ou benéficos, ou nefastos. Da mesma forma, macromanifestações não são perceptíveis, mas que existem, existem, e nem podemos dizê-las maléficas ou salutares. É só atentar para um exemplo simples: na clave de fá, existem tons tão graves que somos incapazes de percebê-los; e, na de sol, agudíssimas manifestações são imperceptíveis. E isto prova que há mais naturalidade que mistério entre o céu e a terra, do que possa prever nossa vã selvageria. Só a compreensão e a experimentação profunda desnudam este universo invisível. E a ausência dessa compreensão e experimentação, confirma o emburrecimento e a irrespondível posição pelo extermínio a qualquer manifestação antagônica, que fira os interesses egoísticos na velha atitude de remoção a qualquer obstáculo. E, contraditoriamente, não conseguimos extinguir a violência no meio da nossa existência flagelada.

Mediante essa modernização do discurso de que o ser humano e o seu meio ambiente deve estar na primeira tônica de todas as pautas das discussões gerais para proporcionar vida plena, o animal, o selvagem, o grotesco, o hediondo, o infame e o irrespondível matador chega a sobrepujar todas as possibilidades de respeito ao próximo, de integridade física e social, de zelar pela vida em todos os seus níveis, como uma verdadeira barbárie. Ao contrário de tudo que se é feito em favor do homem, propaga-se o terror, prolifera-se o medo e mantêm-se a distinção entre poderosos dominantes e fracos temerosos, sendo que estes últimos devem cultuá-los no capricho de suas extravagâncias. Tais sinais estão pontualmente na inoperância e ineficácia do judiciário e na inexistência institucional da Justiça para todos. Além disso, a corrupção deletéria e o despreparo da polícia, a conivência de autoridades - como o caso daquela juíza que liberou traficantes e saiu de férias -, na não divulgação das apurações do Ministério Público quanto aos indiciados da CPI do narcotráfico, na omissão de todos e na incompetência para enfrentar a bandidagem organizada, entre outros e tantos inadimplementos das instituições públicas.

Chegamos, assim, à conclusão de que alguma coisa deve ser feita urgentemente, ou sucumbiremos abatidos pelas várias espécies de calibres ou pelas ostentações descabidas que se deflagra em nosso presente. Repudio e precisamos repudiar essa impunidade que fabrica nossa insegurança. Precisamos manifestar nossa indignação. Precisamos urgentemente clamar pela paz para que possamos fazer, no mínimo, um gesto necessário em favor da vida!

 


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By Maytê Web Solutions

02.09.2003