Mais uma vez vem essa comemoração curiosa de Dia da Mulher. No mínimo curiosa, porque todo dia é Dia da Mulher. Na verdade, o mundo é da mulher. Deus, certamente, é mulher (que me perdoem os homens, mas seu pseudo-reinado nunca existiu – sua glória somos nós...risos). E você consegue acreditar que um homem criaria outro à sua imagem e semelhança? Sim, talvez num arroubo de vaidade, mas é questionável... a competição seria grande e eles querem tudo só pra eles. Então, chega-se, por simples dedução, a essa indubitável afirmativa de que Deus realmente é mulher. E querem comparativo maior da perfeição? Que outro ser existe, que cresce imaginando se multiplicar em mil, para realizar todos os sonhos dos demais seres ao seu redor? Que outra criatura é capaz de se entregar ao infinito prazer de sorrir ao contato com a água, o calor do sol, ou um beijo nos olhos? Que outro produto da natureza é plausível de gerar vida através do amor, doando-se integral e incondicionalmente a esse amor, e ainda suportar todas as dores e dificuldades em nome desse sentimento? Ah, fazer-se bonita pelo simples prazer de se saber admirada. Fazer-se ágil, pelo simples fato de não conseguir ficar parada. Fazer-se amada, pelo simples amor que brota em seu peito. Observem uma mulher, de qualquer faixa etária, de qualquer raça ou credo, de qualquer lugar do mundo. Verifiquem a delicadeza de seus gestos, a harmonia de seus traços, o brilho de seus olhos, a umidade de seus lábios. Ao mesmo tempo, sintam seu perfume de batalha, suas mangas arregaçadas e prontas para os desafios, suas pernas torneadas para se abrirem para o amor, a vida e o prazer, mas também para as longas caminhadas que o destino lhe reserva. Notem sua estatura, nem tão alta que não se curve ante à beleza, nem tão baixa que não se erga em defesa de seus direitos e convicções. Provem seu sabor de mãe, lembrando brigadeiro, sonho e macarronada domingueira. Seu gosto de proteção, de desvelo, de carinho interminável, de insone guerreira contra vírus e febres, de ridícula disputante de vaga na escola, ou de títulos de campeonatos de natação ou judô. Ouçam seus gemidos de fêmea entregue e provocante; de feminista, clamando por justiça; de profissional de qualquer área, orgulhosa de suas conquistas e cônscia de seus horizontes. Sua voz de calma e paz, ou seus gritos impacientes de uma TPM fugaz. Percebam sua doce inquietação no trânsito, disfarçada de auto-suficiência, mas louca para cruzar com um gentil espécime masculino, que lhe poupe esforços, suores indesejáveis e cabelos desarrumados. Atrevam-se a prever suas atitudes e afundarão num mar de calamidade, de desacertos e de incertezas. Somos mais que equações matemáticas, reagimos de forma bem mais abrangente e, portanto, indecifráveis. Não tentem entender as lágrimas que brotam desses olhos. Lágrimas são adornos naturais e apêndices exclusivos, de acionamento automático ao menor balanço dos sentimentos. Sim, é um ser complexo e, por isso mesmo, fantástico. É uma criatura apaixonante, decerto, mas não a interpretem como presa fácil, ou vítima das circunstâncias, sob o risco de cometerem o mais grave erro que jamais imaginaram. São lindas borboletas, sobrevoando os corações, acariciando os egos, demonstrando suas aptidões. Mas também são dinossauros de patas devastadoras e de luta pela vida, pelos seus objetivos, pelos seus alvos de amor. Inútil essa contenda entre macho e fêmea pelo poder, pela inteligência, pelo lugar ao sol, posto que são duas metades, a serem completas apenas quando unidas. Ambos são de carne e osso, sentimentos e alma. Sentem dores, sentem prazer, choram, riem, odeiam e amam com a mesma intensidade, enfim, têm os mesmos atributos. A única diferença é que a mulher os tem simultaneamente. E isso a faz tão especial, tão intrigante, tão diferente e tão maravilhosa. Súditos, reverenciem-na! Bajulem-na! Amem-na! Papariquem-na! Glorifiquem seus dias e seus passos. E sigam-na, porque ela nunca os levaria por caminhos não confiáveis, já que ela sempre vai na linha de frente, pois prefere se ferir a si, que deixar qualquer alvo de seu amor ser atingido por uma única fagulha de dor. Ser mulher é ser iluminada, é ter a perfeita noção da perpetuação da espécie, da criação das novas gerações, da responsabilidade assumida com o futuro. Ser mulher é ser linda, mesmo que seus traços não sejam o ideal venusiano de beleza, mas não importa, porque ela resplandece com a aurora, como uma flor rara e estranha, que insiste em ser diferente e cara. Ser mulher é acumular todas essas tarefas e ainda se munir de aparatos estéticos, loções, cremes, lingeries, novos cortes de cabelo, cores de unhas, silicones e combate às rugas, no intuito de se fazer mais vistosa e atraente para a maior de todas as dádivas que ela poderia almejar: o homem.
Lílian Maial Rio, 02/03/01.
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