PORTUGUÊS DIVERTIDO

 

Ivo Korytowski

 

 

Esta coluna é toda sua! Sabe aquela dúvida de português — ortografia,
gramática, estilo, poética, literatura — que você tem há muuuuuito tempo mas nunca teve oportunidade de esclarecer? Mande pra cá que faremos o possível para responder. O endereço: ivok@mayte.us Diga como prefere ser identificado(a) — pelo nome completo, prenome ou nick. Sua participação é fundamental para o sucesso desta coluna.

 

Armadilhas da língua portuguesa: ambigüidade de “seu/sua”

A história a seguir, que anda circulando na Internet, é um exemplo da ambigüidade do pronome possessivo “seu/sua”. O problema não existiria se fizéssemos como os portugueses — e como fazem as outras línguas que não o português — e usássemos a segunda pessoa do singular — tu, te, ti, teu, tua — em vez do pronome de tratamento “você”.

O diretor geral de um banco estava preocupado com um jovem e brilhante diretor que, depois de ter trabalhado durante algum tempo junto dele, sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Então o diretor geral do banco chamou um detetive particular e disse-lhe: "Siga o diretor Lopes durante uma semana."

O detetive, após cumprir o que lhe havia sido pedido, voltou e informou: "O diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o seu carro, vai à sua casa almoçar, faz amor com a sua mulher, fuma um dos seus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho." Responde o diretor geral: "Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso."

Logo em seguida, o detetive pergunta: "Desculpe. Posso tratá-lo por tu?" "Sim, claro", responde o diretor, surpreendido. "Bom, então vou repetir", disse o detetive. "O diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o teu carro, vai à tua casa almoçar, faz amor com a tua mulher, fuma um dos teus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho."

A língua portuguesa é muito traiçoeira! 

chefe de governo versus chefe de Estado

Faz poucos meses, vimos na televisão que o presidente Lula, em viagem para participar da reunião de um desses foros internacionais (a OIC, se não me falha a falha memória!), encontrou-se com muitos chefes de governo e chefes de Estado. Você sabe a diferença entre “chefe de governo” e “chefe de Estado”? Eu também não sabia, mas resolvi pesquisar.

Chefe de Estado é o representante do Estado (Estado com inicial maiúscula, no sentido de “país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado”) e chefe do governo é quem realmente governa. No regime presidencialista (Estados Unidos, Brasil e outras nações) o presidente acumula as funções de chefe de Estado e chefe efetivo do governo, enquanto no regime parlamentarista (vários países europeus, Israel, Índia) há uma divisão: a função de chefe de Estado compete ao presidente, enquanto a direção efetiva do governo cabe ao primeiro-ministro ou chanceler, o chefe do governo. (Informações obtidas no Dicionário de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas.)

 

Minha amiga Sônia Eva escreve o seguinte e-mail (que transcrevo tal qual, sem mudar uma vírgula):

Estou com uma dúvida e acho que você pode me ajudar. O certo é DAQUI HÁ MAIS UM TEMPO ou DAQUI A MAIS UM TEMPO? Nunca sei como se usa este HAVER. "Há muitos anos não vejo você", o que é verdade, neste caso é com AGÁ, né? E "Daqui há alguns anos verei você", é a mesma coisa??

Qual é o macete?

 

Eis a resposta que mandei para Sônia, que também transcrevo tal qual, sem mudar uma vírgula:

Sônia querida,

Você encontrará uma explicação claríssima para esta e todas as suas outras dúvidas de português no meu recém-lançado livro PORTUGUÊS PRÁTICO (Editora Campus), um livro superbem-humorado, cheio de historinhas e curiosidades, e ilustrado pelo grande Jaguar. Você o encontrará em qualquer boa livraria, inclusive a Siciliano aqui de Copa.

No topo da página 17 do meu livro você encontrará a resposta à sua pergunta:

Qual a forma certa: daqui a pouco ou daqui pouco?

Decore e nunca mais esqueça: tempo passado, verbo haver ou fazer (impessoal). Tempo futuro, preposição a. Ela chegou de Minas três meses. Ela chegou de Minas faz três meses. Irei para Minas daqui a três meses. Fácil, né?

E agora, um pequeno exercício para ver se você, leitor, aprendeu a diferença. Complete: Não o vejo ___ (a ou há?) muito tempo. Eu o verei daqui ___ (a ou há?) uns dias. A resposta está lá no final da coluna.

 

Onde fica o alto astral?

 

Nos anos 60, época do movimento hippie e da contracultura, popularizaram-se as expressões “alto astral”, “maior astral”. “Estou no maior astral, bicho!” Essas expressões refletiam o interesse da juventude da época pelas religiões orientais e esoterismo. Segundo certas crenças orientais e esotéricas, o plano astral seria uma espécie de mundo invisível, espiritual onde residiríamos entre uma encarnação e outra, mas que também pode ser “visitado” em vida nas chamadas viagens astrais. Quanto mais alto o astral, maior o distanciamento do mundo físico. Alto astral!

 

DICA DE LIVRO: A última adolescência de Helio Brasil

 

A memorialística é o gênero literário das memórias. Entre os clássicos da memorialística brasileira estão O nariz do morto, de Antonio Carlos Villaça, e os seis livros de memórias do notável Pedro Nava.

As memórias podem ser explícitas, na primeira pessoa do singular (“Gostava muitíssimo dos longos passeios de carro, por este Rio. Foi em torno dos meus dez anos que descobri a minha cidade.” — Villaça, O nariz do morto), ou podem estar “disfarçadas” em forma de romance. O caso clássico de “memórias” em forma de romance é O Ateneu, de Raul Pompéia. Outro exemplo é o recém-lançado Todas as casas de Roberto Gomes (Criar Edições, 2004), segundo André Seffrin (OPasquim21 no 116) “um dos mais belos livros da memorialística brasileira”.

Outro belíssimo “romance” memorialístico é A última adolescência, do meu amigo Helio Brasil (Bom Texto Editora, 2004). O autor (lemos na orelha do livro) traça um variado painel suburbano dos anos 40. A trama gira em torno da Villa Elzira, um conjunto de casas modestas nas imediações do bairro carioca de São Cristóvão. Três classes de personagens coexistem neste mini-universo: os garotos, divididos entre as disputas, as peladas de rua e o sexo reprimido, descoberto muitas vezes nos braços das prostitutas do Mangue. Os homens, embalados com os sonhos de ascensão social. As mulheres, as pudicas e as namoradeiras, casadoiras e adúlteras.

Para vocês “sentirem” quão bem escrito é o livro do Helio, eis um trecho do capítulo que descreve um jogo de futebol entre as equipes (de meninos) do Matosinho e Barro Vermelho:

 

Carone dava as últimas instruções ao filho Wanderley. Como deixar o gol, a maneira de se colocar em relação à bola. “Presta atenção: um triângulo; os vértices são: as balizas, direita e esquerda, A e C. O terceiro vértice, B, é a bola.” O garoto olhava e olhava para o gol, sem ver tanta letra. “Presta atenção, porra!” E o goleirinho: “Pra que essa merda, pai? E o oficial, irritado: “Não diz palavrão!” E continuava didático, superior: “Você se coloca na bissetriz do ângulo A, B, C. Entendeu? “ Um dos moleques rolava na grama, dando risada. “Bissetriz? Parece aquele negócio da mulher...”

 

FRASE DO MÊS

 

Diante de tantos escândalos e tanta maracutaia (e tantas promessas eleitorais descumpridas), a gente às vezes chega ao ponto de desanimar com a tal da democracia, esse regime que Platão considerava tão imperfeito. Mas não podemos nos deixar seduzir pelo canto da sereia da tentação totalitária. Veja a história do século XX, com sua sucessão de guerras e massacres provocados pelos totalitarismos de direita (nazismo, fascismo, ditaduras militares) e de esquerda (tentativas de implantação do “socialismo real”. Por essas e outras, a frase do mês é a famosa frase de Churchill sobre a democracia:

“Democracy is the worst form of government except for all those others that have been tried.”

“A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram tentadas.”

 

Estatísticas

 

Todo mundo sabe o que é uma estatística. As estatísticas estão por toda parte. Quando lemos que a novela Celebridade alcançou 58 por cento de audiência ou que no vestibular de Medicina existem vinte candidatos por vaga, estamos lidando com estatísticas.

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “estatística” surgiu no português em 1815, baseada na palavra francesa statistique, que por sua vez veio da palavra alemã Statistik, derivada da palavra do latim científico (o latim usado pelos cientistas, e não o latim original de Roma antiga) statisticum, formada da palavra latina status (estado) + isticum. Mas será que as estatísticas dizem mesmo a verdade?

As estatísticas têm lá seus mistérios. Estatisticamente, de cada cinco crianças que nascem no mundo, uma é chinesa; no entanto, conheci mais de uma mulher com cinco, seis filhos, e nenhum tinha olhinhos puxados!

Leio no jornal* que, segundo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) “pelo menos 559 mil crianças no Brasil trabalham em condições de escravidão em funções domésticas”. A mesma matéria diz que “Trata-se de um problema invisível, pois essas crianças estão dentro de casas que não são verificadas”. Pergunto: se o problema é invisível, como foi que a OIT descobriu que afeta exatamente 559 mil crianças (e não 558 mil ou 560 mil)?

Aliás, cresci ouvindo na televisão que nove entre cada dez estrelas de cinema usavam sabonete Lever (pra moçada mais jovem: Lever era o nome anterior do sabonete Lux, assim como Kolynos era o nome anterior da pasta Sorriso). Como nunca mais vi essa propaganda, pergunto: as estrelas de cinema mudaram de marca de sabonete ou o fabricante foi processado por propaganda enganosa?

Já pensaram o dia em que os estatísticos puderem ser processados por “estatística enganosa”? Eu vou processar aqueles que ficam inventando que uma de cada não sei quantas pessoas terá aquela doença rara que a gente sabe perfeitamente que ninguém tem (até porque nunca ninguém ouviu falar dela). E as estatísticas sobre o aumento alarmante da incidência de Aids entre mulheres casadas e homens heterossexuais? Cá entre nós, você conhece alguém — no seu círculo, no seu prédio, na sua associação de classe — que tenha Aids?

Outra estatística que me intriga é a dos famintos brasileiros. Até a subida ao poder, o Partido dos Trabalhadores apregoava que um de cada três brasileiros estava ameaçado de extinção por fome. Pois agora que o PT está no poder, onde foram parar esses 60 milhões de famintos, que ninguém mais fala deles?

E as estimativas do número de pessoas que comparecem a um megaevento? Por exemplo, todo réveillon, ouvimos dizer que 2,5 milhões de pessoas compareceram à queima de fogos na praia de Copacabana. Supondo-se que fique todo mundo que nem sardinha em lata (o que não é verdade; quem vai ao réveillon sabe que há espaços vazios entre as pessoas), seriam precisos 2.500.000 metros quadrados pra abrigar esse povo todo — um metro quadrado per capita. Isto dá 2,5 quilômetros quadrados. Como a praia tem uma extensão de uns quatro quilômetros, pra caber essa gente toda, teria que ter uma largura de 625 metros. Será que tem? (Com a palavra a turma da fita métrica.)

Por essas e outras, quando ouço que, a cada não sei quantos minutos, tantas pessoas são vítimas de não sei quê, que mensalmente tantas mil espécies da fauna ou flora são extintas ou o equivalente a tantos mil campos de futebol de floresta é derrubado... faço igual o santo que vê muita esmola na sacola: desconfio!

 

MINHOCAS NA CABEÇA

 

De onde vem tanta água? (Por exemplo, as águas do Amazonas!)

 

Se, por um acesso de insanidade, todos os passageiros de um avião deixarem de acreditar ser ele capaz de voar, o aparelho cairá?

 

Resposta à pergunta do a e

 

Muito bem! Quando é passado, verbo haver: não o vejo muito tempo. Quando é futuro, a sem h: eu o verei daqui a uns dias. Você nunca mais vai errar, né?


 

* O Dia de 11/6/04.

 

 

ivok@mayte.us

 

 

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By Maytê Web Solutions

02.07.2004