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MUITO
PRAZER
Maria
de Lourdes Leite
Num
instante, mínimo instante, era uma estrela no infinito da vida.
No outro momento a seguir, mágico momento, transformei-me em
nada. Fui a quietude dos campos no começo de outono… e neste
breve e eterno segundo, fui o vento que soprava fazendo curvas
voluptuosas sobre as dunas das praias e que cantava louvores aos
coqueiros envaidecidos pelos nossos beijos apaixonados.
Por
um instante, pequeno momento, pensei ter-me transportado para a
eternitude do mar. Fiquei enverdecida pelas ervas e brinquei com
as cores para me pintar novamente de azul, porque encontrei a
serenidade do céu.
Então,
quis ser o céu. Vesti-me de pétalas brancas. Fiz cócegas nas
nuvens e escondi o sol para que as nuvens se pusessem a chorar…e
elas choravam em desespero com a ausência dele, que se tinha ido,
sem as avisar.
Foi
aí que percebi da tarde que caía sobre a terra molhada. Do silêncio
que povoava as praias. Do deserto úmido que varria o mundo. Fui
buscar água da chuva e molhei a areia que anoitecia na praia…
Cansei-me,
então, de ser céu, de ser sol e de brincar com as nuvens…
Fui
buscar a pequenez dos rios. Deixei-me ir na correnteza das águas
e fui amaciar as pedras. Quis ser peixe e deixei de ser peixe.
Comecei a deslizar com a correnteza, sendo uma folha muito verde
que ainda guardava restos do verão que se ia embora… e fiquei
contente ao deixar de ser rio, porque queria ser pássaro.
Quando
era pássaro, voava muito alto, descia em direção à terra…
enganava a todos e a mim, porque voltava, e subia, e cantava em
cima dos galhos das árvores mais frondosas, fugindo dos pássaros
maiores que eu. Subia e descia e tornava a descer. E me cansei…
Então
me vi nua com as pernas e cabelos molhados. Corpo por baixo de
outro corpo, que, de um instante, assim, para o outro, deixou de
fazer parte do meu. E de minhas pernas escorria um líquido
viscoso que molhava a areia e ia deslizando restos de gozo que se
misturava com as ondas que batiam na praia, onde estávamos
deitados… E fui deixando de ser maior do que meu tamanho
pequeno. E fui percebendo o teu vulto
a surgir a meu lado, novamente sobre o meu corpo já
estafado, ainda esfomeado de ti. E fui voltando ao eterno de onde
acabara de vir.
E
fui ficando novamente azul, e de novo fui ficando verde e brinquei
uma outra vez com as cores do arco-íris. E remexi em todas
as árvores do mundo, soprei os ventos montada sobre um cavalo
alado. Voei como as gaivotas à volta da areia e cantei
cantigas…cantigas tão loucas que o mar se ria de mim e me
mandava ondas para me fazer calar. Brinquei de novo de ser um
riacho que corria solto em busca do rio maior. Subi em montanhas e
ultrapassei os picos mais altos apenas com um sussurrar de tua voz
ao meu ouvido…
Quando
subi até ao Olimpo, encontrei deuses e demônios embriagados.
Bebiam em taças de prata o néctar que brotava de mim…
Então
ouvi um grito mais alto e senti a vibração de um corpo que era o
meu corpo deitado na areia da praia e… na praia… lentamente…
muito lentamente… teu vulto sobre meu corpo deitado na praia…
e o teu peso sobre meu corpo, minhas coxas
enroladas em tuas costas, por cima de meu corpo deitado na
areia da praia…
Olhei
o céu. Despedi-me dos astros. Disse adeus as nuvens que encobriam
o sol. Deixei de ser pássaro, de ser rio, de ser folha de rio…
e vi-me a mim aveludada pelo teu líquido espesso e morno que foi
saindo aos poucos de dentro de minha caverna e foi semeando a
aridez da areia do onde brotavam criaturas eternas sem nomes, sem
formas, sem filhos de nós…
E
fui ficando lúcida. Vi-te de mais perto. Fui ficando humana e
ouvi-te dizer:
“Te
amo”
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