Tuberculose - um mini-retrato

 Parte III

 

Cissa de Oliveira

 

Intensidade de Contato X Transmissão da Tuberculose

 

Como já foi discutido, a ocorrência do HIV é um risco adicional para a doença tuberculose, o que pode ocorrer em qualquer população, inclusive por permitir a reativação de focos de Mycobacterium tuberculosis latentes no indivíduo.  Outros fatores como a idade e uso de quimioterápicos, também estão associados ao acometimento da doença. No entanto, uma vez que a tuberculose é transmitida de pessoa a pessoa, a intensidade de contato é uma condição importante que não deve ser esquecida, especialmente em ambientes favorecedores para a transmissão, como por exemplo, os locais mal ventilados. 

O contágio propriamente dito, depende basicamente da fonte de infecção (indivíduo contaminado) e da pessoa susceptível a esta contaminação. A fonte de infecção, normalmente, é o indivíduo com a tuberculose na forma pulmonar, eliminando os bacilos M. tuberculosis para o exterior, e por isso, essa fonte de infecção pode ser mais ou menos perigosa, segundo seu estado bacteriológico, que pode ser descrito como dois tipos:

Bacilífero = é aquele indivíduo que ao exame de baciloscopia do escarro é positivo (B+), pois sabe-se que nesse caso, ele elimina uma quantidade de bacilos superior a 5000 por mL de escarro.

Não bacilífero  – é aquele indivíduo cujo exame de baciloscopia do escarro é negativa. Nesse caso, deverá ser analisada se a cultura do escarro é positiva (C+) ou negativa (C-). Como é sabido, a transmissão da tuberculose ocorre pelo ar, através de gotículas contaminadas, e um indivíduo com alta quantidade de bacilos é muito mais propenso a estar eliminando estes bacilos do que outro, com uma menor quantidade.

Os doentes de tuberculose B+  infectam um número maior de pessoas do que aqueles com apenas cultura positiva (C+) ou, menos ainda, com culturas negativas (C-). Praticamente não há diferença entre o percentual de pessoas contaminadas pelos grupos de (C+) e (C-).  Outro dado importante é que as pessoas infectadas por indivíduos  com baciloscopia positiva (B+), adoecem muito mais do que os infectados por indivíduos com resultados de culturas positivos (C+) ou negativos (C-).

Quanto mais freqüente e prolongado for o contato com doentes bacilíferos (B+), como é o caso de pessoas que convivem no  mesmo domicílio, tanto maior será a proporção de pessoas infectadas. Um exemplo claro é um caso de contaminação ocorrida num submarino (US Byrd) em que um doente contaminou 139 dos 308 tripulantes.

Estudos realizados mostram que os moradores da vizinhança ou amigos próximos dos doentes bacilíferos têm  um risco menor (3,7%) de se infectarem do que os contatos domiciliares (20,2%). Os doentes (C+) e (C-) dificilmente infectarão pessoas do seu círculo de amizade ou colegas de trabalho.

A intensidade de contato é uma das condições que fazem com que a tuberculose seja tão associada à população de baixa renda, porque nessa camada social, famílias numerosas convivem muito proximamente em casas pequenas, mal ventiladas e úmidas.

Outros locais onde ocorrem aglomerações de pessoas também são favorecedores para  a transmissão da tuberculose, como é o caso de hospitais e presídios. A sugestão é de que estes doentes sejam colocados em quartos ou celas individuais, evitando-se, assim, a  transmissão da tuberculose.

Um estudo em 29 repartições de saúde nos EUA entre 1984 e 1985, demonstrou que a incidência de tuberculose entre internos de instituições presidiárias, era três vezes maior do que para a população adulta não encarcerada. Nos presídios, onde o ambiente é mal ventilado e  condutivo para a transmissão da infecção pelo ar, não apenas os presidiários, mas também funcionários e visitantes podem ser contaminados. Outra questão que deve ser comentada é que indivíduos presidiários, se não tratados, podem difundir a doença também entre a comunidade onde serão libertados.

Estudo realizado por Moreira-de-Oliveira no período entre fevereiro de 1997 e setembro de 1998, em quatro presídios da região de Campinas, SP, identificou através de técnicas microbiológicas, biomoleculares e de estudos epidemiológicos, várias diferentes  linhagens de M. tuberculosis em amostras de escarro obtidas desses presidiários. Algumas linhagens de M.tuberculosis idênticas foram encontradas em diferentes amostras de diferentes detentos, evidenciando uma possível transmissão entre esses doentes.  Análise posterior dos dados cadastrais dos detentos envolvidos no estudo, demonstrou que vários deles conviveram por pelo menos um período no mesmo presídio, reforçando a idéia de transmissão da tuberculose nesses casos.

Várias recomendações já foram sugeridas para o controle da transmissão da tuberculose (http://www.mayte.us/saude/tuberculose2.htm) e no caso específico dos locais onde ocorrem aglomerações de pessoas, é recomendado que haja não apenas o registro de vigilância com identificação, com relato de todos os casos,  tratamento apropriado e isolamento para prevenir transmissões, mas também uma melhora no sistema de ventilação.

 

Bibliografia:

 

  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Programas Especiais de Saúde. Divisão de Pneumologia Sanitária. CNCT. Controle da tuberculose: uma proposta de integração ensino-serviço. Brasília. CNCT/NUTES – 4a. Ed. A994, 174p.
  • Braun, M.M.;  Truman, B.I.;  Maguire, B.  Diferdinando,D.T. Jr., Wormser, G.; Broaddus, R.; &  Morse, D.L. 1989.  Increading incidence of tuberculosis in a prison inmate population. JAMA 261 (3): 393-97.

·        Martín V, Gonzalez P, Caylá JA, Mirabent J, Cañellas J, Pina JM & Miret P 1994.  Case-finding of pulmonary tuberculosis on admission to a penitentiary centre. Tub Lung Dis 74: 49-53.

  • Hermans PWM, Schuitema ARJ,  Van Soolingen D, Verstynen CPH, Bik EM, Thole JER,  Kolk AHJ & Van Embden JDA 1990.  Specific detection of Mycobacterium tuberculosis complex strains by polymerase chain reaction. J Clin Microbiol 28: 1204-1213.
  • Moreira-de-Oliveira,M.S. Caracterização molecular de isolados de Mycobacterium tuberculosis obtidos de internos em instituições correcionais de Campinas, SP, e a transmissão da tuberculose nessas instituições.1999. Tese (Mestrado) Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP., 1999.
  • Small PM, Robert MD, Shafer W, et al. 1993. Exogenous reinfection with multidrug-resistant Mycobacterium tuberculosis in patients with advanced HIV infection. N Engl J Med  328: 1137-44.





 

Cissa de Oliveira

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26.07.2003